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Carta a Dalila

02/02/2016

dlla

Vê:
Nada escapa à observação.
E se tantos e tantas se retardam,
[e] ma[i]s se desejam
nada mais natural que se exponham.

Olha.
Todos iguais, capazes,
mas nem todos livres.

Perceba. Nós também somos iguais.
Mas eu me fiz livre
para não me expor.
Para não me retardar, também.

Longa é a estrada.

Um duplo de mim que me falseia é inaceitável! Desperte!
Faço pelo simples motivo de querer e poder,
dobrando tudo à minha vontade.

Agora sou eu o senhor dos destinos
e por deixar você ir,
obrigarei que fique.

Uma.
Duas.
Três, Dalila.
Vista outra fantasia
repleta e multicores.
É tempo de reivindicações.

Uma supernova.
Teu coração. Minha mão. Pó.
Sinta meu enlace:
Eu quero, Eu posso, Eu faço.

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A guerra. A torre.

21/01/2016

dançanatorre

Na fila primeira
infantaria
brilhando o fio da espada
o Rei impõe sua voz tardia;

Milhas e milhas
Terra descampada

Separados

Chuva e sol
O barulho da tempestade
Um silêncio ensurdecedor…

E na torre do castelo
No regresso da genuflexão
O trono das centenas de mãos que sangram está vazio;

E ela dança catártica na torre mais alta
A sacerdotisa-rainha que não sabia dançar;

Água. Luz. Som.
“Deus do Trovão, vinde a mim!”
Oração tardia não impedirá o fim do mundo.

Um passo

17/11/2015

step

Olha só, eu fui, eu vi um pedaço do mundo e voltei. E eu estou em dúvida. Uma eterna dúvida que emerge quando a minha vista, aguda que é, pode enxergar tão além. É que eu nunca busquei, verdadeiramente, atender ao chamado do meu espírito que me dizia para escorrer como água, para me largar no vento do mundo e ir sem olhar para trás.

No jogo dos elementos, sempre favoreci muito à terra, à raiz, ao estar e ficar, permanecer.

Olha só, minha cabeça está exausta e eu não quero falar, pois eu estarei sendo egoísta. Perceba, eu silenciei em parte por querer ser seu suporte quando você precisa de mim. Mas eu preciso dizer, com todas as letras: pela primeira vez, eu me afastei um passo de você.

Pela primeira vez, eu não insisti em tentar fazer barulho nos seus silêncios, compreender as suas complexidades, liberar as suas interdições. Pela primeira vez, talvez por muita química na cabeça, eu simplesmente dei as costas e segui por outro caminho.

Eu ESTOU um passo distante de você,
Eu NÃO QUERO estar um passo distante de você.

É que quando eu estou aqui para ser teu suporte, você não me toma como tal. É que quando eu te chamo para ser vida em relação, não há vida e não há relação. Uma semana e eu conheço mais a vida de desconhecidos do que a sua – e a sensação se repete. Intensamente.

Eu ESTOU um passo distante de você,
Eu não quero estar um passo distante de você.

Dói.

E mesmo se a perseguição do objetivo for incansável, mesmo que só o inefável sentimento nutra tudo o que eu não-sei-dizer-o-motivo-de-ser-do-jeito-que-é, e mesmo que eu queira estar e ser, ser e estar, talvez não esteja mais nas minhas mãos o controle de como meus pés vão caminhar.

Eu ainda estou aqui. Eu quero estar aqui, mas eu estou um passo distante de você e eu não quero estar distante de você.

Dói.
E eu sorri por ter me movido.
Me tome de volta.

Me tome de volta.
Se as coisas continuarem como estão…
Dói.

Aporia

11/10/2015

maze

Tal um estado:
como uma confusão
um colocado contra a parede
envolto em diversas e diversas,
minhas todas,
conjecturas.

Tal um estado,
assim, ao meio partido,
exposto em dois, emotivo e racional,
Uma dúvida, um impasse
uma perda.

Tal um estado:
o labirinto, a dificuldade,
a dor da reflexão, o parir do pensamento.

Para alguns sujeitos, como eu, uma aporia, posta dessa maneira, dentro do próprio peito, é uma chance e um desafio, um chamado e uma necessidade vital, uma oportunidade de encontrar uma nova resposta.

O novo não pode ser feito apenas por duas mãos: Eu não chamarei, eu irei até você.

Oração & Juramento

09/10/2015

djuramento

Era preciso me manter acordado. Afinal, olhar num tal tipo de espelho é como ver, além do próprio reflexo, uma oportunidade de um di-álogo. Um reflexo e um contato. E ai de mim, ai de mim se não percebo quando o espelho, em seus sortilégios, se põe como o próprio cristalino, estrutura de minha visão, da minha vida.

E parece que eu não posso escapar dos passos de dança que eu já conheço e reconheço e reproduzo. Este é o meu segredo, meu hábito revelado.

Não se engane, inexiste uma segunda opção e por isso eu disse: “preciso fugir.” Não disse ataque, não disse defesa – nenhum dos meus movimentos é algo além de uma fuga.

Para mim, inexiste uma alternativa e por isso eu digo: eu só posso ter uma oração – eu te amo – a tão perigosa, incompreensível e inalcançável frase. Salvação e derrocada, solução e destruição. O surgimento de uma demanda de toda compreensão e companheirismo e que, por absurdo, me faz não conseguir entender nada, pois, no fundo, eu perdi, querendo ganhar uma aposta que só um tênue segredo guarda.

Eu te amo. E não tem tempo ou força que possa impedir: se você vier então eu irei, também. Este é o meu segredo, a minha contraparte exposta.

E todos me dizem para não digitar teu nome ou buscar o teu perfil. Não escutar as músicas que evoquem a tua imagem. Pedem e aconselham: evite os textos que me façam ir até o coração que não é mais meu par. “Você é só agora, preserve sua vida, não foi por isso que foi preciso encerrar tudo?”.

Mas o que adianta? Se a paz que eu estava construindo, para poder assegurar o mínimo de minha integridade, diante de um futuro que era só vontade minha e não existia sequer como possibilidade, foi destruída com um movimento seu?

De que adianta, por outro, lado viver uma vida de interdição? Não suporto mais um dia dos atenciosos e preocupados nãos dos que me querem bem – apesar de querer os que me querem bem. Não ver, não ouvir, não ler, não escrever, não dizer, não tentar. Este é o meu segredo, meus últimos dias relatados.

E qual a razão, agora, para tentar reclamar “o que foi que você fez?!”?

Você, meu escudo em declaração, uma interposição entre mim e o perigo, mas foi o seu olhar que me atingiu antes de qualquer outro mal. Foi a sua palavra que impôs à toda energia que acumulei o comando imperativíssimo: desapareça! E não me resta nada. E este é o aspecto de desespero do que me é secreto nos últimos dias.

Não se engane, não se engane, não se engane. Eu não te esqueço nem um dia sequer. E as pessoas estão, de forma tão honesta, tentando me ajudar. Tentando existir comigo e para mim, entretanto eles no máximo são bem sucedidos em momentos. Distrações. O aspecto do mundo agora é uma grande escala de cinza e existe um grande fio vermelho que me liga diretamente a uma única fonte de cor que vai diretamente até você. E o [m]eu segredo também se manifesta de formas físicas em vivência.

Desfaça a confusão. Por favor, desfaça a confusão. Essa liberdade dói em mim. Eu estou, diuturnamente, me negando a ser e sentir ser assim. E em que pesem as ponderações racionais dos que me socorrem, eu nunca neguei tão fortemente. Não!

Então que diferença faz? Eu esclareço. Eu digo. Eu revelo. Mas o eu é um estratagema, veja: quem morre por dois inteiros sou eu, só. Morro duas vezes: morro eu, ente, sujeito. Um. Morro outro, o meu amor, meu laço inteiro por você. Dois.

E até aqui, se for assim, quando eu paro e me pego pensando, que seja: eu prefiro assumir o débito final desta conta cujo cálculo eu não consigo fechar. É que eu te amo. E isso não é um segredo para você e essa é uma verdade da qual eu não posso escapar, simplesmente e sem exceção.

Diálogo com E. E. Cummings

30/09/2015

root

Os poetas sabem, meu caro poeta. E eu sei sem ser, por intromissão, o tal segredo que ninguém conhece. Ver a raiz da raiz, o céu do céu, a árvore da vida é ver perto demais. Ver o que está por dentro. Ver por sentir incondicionalmente, por sentir sem selecionar os pedaços: o mau e o bom, o belo e o feio, o seguro da paz e o inseguro da destemperança, por inteiro.

Você de-clarou, tornou claro, expôs e antes disso aceitou que fosse dessa forma. Ser sendo outro ser, ao mesmo tempo. E com isso você alcançou uma liberdade, cujo contrato não previa condições e contrapartidas. Será mesmo?

Você de-clamou e chamou para si um pedaço que não faz parte de sua entidade. Exigiu da mente o não-segredo, permitiu que a esperança da alma vislumbrasse concretude em seus desejos: eu te amo – eis o selamento expresso.

E por carregar o outro coração, carregando-o em seu próprio peito, você passou a ser um que vive dois. Incoerente. Incontente. Triste. O papel em branco de uma só frase se revelou cheio de cláusulas ocultas, detalhes problemáticos. O que parecia dois-um, mostrou-se dois efetivamente dois.
O que você faz agora, poeta, por carregar um coração que não tem nenhuma [un]idade junto com o seu próprio coração? Um paradoxo vivente, um absurdo ambulante.

Eu carrego o seu coração, eu carrego ele em meu coração.
Um que não é um. Dois que não se faz relação.
A relação que é, verdadeiramente, a união.
Ciência contente de descontentamento: miserabilidade.

Você entende, nós entendemos. Eu sei.
Para [sobre]viver, é preciso, primeiro, morrer por dois inteiros.

Entre o barro e o telhado

18/04/2015

house-roof-hi

Tudo era passível de nos superar em inteligência e força[…]
Ter coragem de louco não é valentia, é inconsciência, é imprudência,
uma propensão suicida, a falta de telhas na construção da cabeça.

.Valter Hugo Mãe

A cabeça também destelha por vontade própria ou contra o querer do dono. A cabeça sem telhas se apresenta para testemunhar a agressão do sangue, da carne. Às vezes o arrancar das sobrepostas calhas invertidas de barro deixa marca que não sara no crânio. Sangra sangra sangra. Dói dói dói. Até levar para a ciranda interminável da loucura.

Perde-se telhas por ausência de bons sentimentos. Sem bons sentimentos a tessitura do barro entrecruzado e travado se desfaz. Perder o teto, tendo-o aberto, é bom jeito de exprimir em imagem o que é um coração vazio:

o som entra por demais,
o sol ilumina até torrar,
a chuva açoita inconveniente,
se adoece e morre.

Meu coração está vazio de barro. Não pode ser casa de vida verde e bonita.

[passou um tanto do tempo, tipo lágrima expulsa na força]

E eu ainda insisto em tentar preenche-lo: fazer e modelar barro, conjurando-o com as mãos no chão do espírito, tal qual fazia quando menino.