Skip to content

A boca silenciosa de deus

22/04/2017

Ou: antipoética da fala e do silêncio

Há muito tempo não escrevo um poema.
Resolvi escrever pois queria escrever um poema de amor sobre nós dois.
E isso está me sufocando.

Faz muito que eu não escrevo um poema.
E realmente faz muito tempo, para o nosso tempo,
que eu quero escrever um poema de amor sobre nós dois.

E sobre nós dois,
Amor,
não falta para escrever um poema de amor
sobre nós dois.

Entretanto, eu preciso escrever agora (1) poema
um típico de todos aqueles que escrevi,
das pessoas que já leram
e daqueles que ainda vão ler
dos que podem ver
e dos que poderão testemunhar e dizer:
este não pode escrever nada além de poemas que não sejam sobre coisas que não de amor. Não me fiz entender, coisas que não sejam coisas de amor. Coisas que sejam opostas ao amor. Coisas que tenham a ver com a tristeza, tenham a ver com a dor, tenham a ver com a raiva.

Como uma ordem perversamente programada:
em mim, a suspeita leva à tristeza e a tristeza, em mim, leva à raiva,
a raiva, em mim, essa, leva à poesia. Mas a poesia…
me leva ou
está;
já;
diretamente ligada
a pensar na tua infidelidade.

E se escrevo é porque já penso e repenso em tu infiel,
por que teu riso é riso pra outro e não pra mim,
por que teu caos, tua tristeza, teu silêncio é pra outro se-a-forma-e-a-circustância-deveriam-apontar-pra-mim-e-não-para-outro?

Gravado na carne, antes mesmo deu nascer, império de pai, forte, e cuidado de mãe, excessivamente constante, vejo, suspeito e intuo, aquilo que é mais do que o presente.

Só que o meu tempo também muda.
Passa.
E diferente de antes, não apenas, se pro.tra.i.

E o “se”, o que outrora, antes descrito, me levaria à previsão, agora, me empurra indelevelmente ao abismo do desdém.

Minha maturação levou a responder
silêncio com silêncio,
dor com silêncio
e o riso que não foi dado para mim, mas que aparece para mim como se tal fosse, é respondido com riso.

A pergunta sobre a verdade, o fundo e os mistérios que isso envolva, já não me cabe mais responder: leia comigo – desdém, desapreço, desconsideração, indiferença todas estão lado a lado no dicionário e na semântica, e se desbordam para a arrogância, também o fazem para a altivez.

Assim, bem no fundo, escrever esse poema tem muito pouco de poética e muito de prosa e antipoética. E ao que me lembro, estou devendo e querendo escrever um poema de amor sobre nós dois e amor não falta para escrever um poema de amor sobre nós dois.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: