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Da métrica do espaço-tempo que é construído por laços de pano

05/02/2017

Todo mundo tem uma luta cotidiana e a gente não sabe bem qual cada qual está travando. Mas isso vira apenas palavra de auto ajuda quando essa fita de pano que amarra nossos tempos nos faz esbarrar aqui e ali em oposição às vontades.

Olha, ser poeta era minha maneira de estar sozinho, e eu imitava Pessoa muito bem. Mas agora eu não tenho poesia e poderia perguntar se deixei de estar só, de ser só. Mas, olha lá, a verdade é que estou seco, um estado ressequido de fatos e vontades. Minhas palavras saem com dificuldade sobre sentir e, proporcionalmente, eu vou me tornando um excelente planeador, calculista: atei as pontas do passado e do presente – troquei Pessoa por Bentinho, sequer ousei pensar em Machado.

Considera isto que te apresento, enquanto estive só, outros fios e fitas de panos diferentes me chamaram e me ataram, assim e, portanto, e então – por que são tantas as etapas, mistérios e barreiras que agora existem – eu fui trazido de volta, em parte, e não ter poesia Eu te afirmo nessa frase junta e sem pontos é não estar só sim. Também não estar só é aprender a ter poesia, sabe? Uma diferente, a cada dia.

Percebe: até que a preguiça, uma espécie de apatia, também é uma murada exposta e imposta, de ver gente, de conhecer gente e voltar para esse nosso espaço, essas expectativas, essa fuga de olhar. Isso tudo nasce das vezes que tento revisitar o passado, reinterpretar tudo e tentar trazer o positivo, o agregado, o aprendizado: na abstração funciona, mas no concreto, quando te insiro só existem escombros.

Nós conseguimos nos especializar em construir escombros. Pedindo o futuro, exigindo o presente. Mesmo com as cartas na mesa para saber o que era possível, até onde dava, não houve uma resposta apta e quando houve, a audição foi nula.

E de tantos problemas ocultos, de falas tergiversas, problemas e hábitos puno-condeno-absolvo, de tanto escrevermos no pano que amarra nosso laço, ele mudou de cor – esqueceu a sua origem, hoje é todo notas: a forja gerou um olhar covarde.

De minha parte, o silenciamento das palavras vai impor aos olhos dizerem mais, olhos eloquentes.  Sem regras fáceis para pouso seguro aos que já morreram em choque com o chão:

não existe local para se segurar.

O olhar sem o truque,

todo a mágoa,

todo a raiva,

todo a força

todo a vontade,

nessa nossa roda samsara e tuas mutações-mais-para-repetições sem razão.

O que eu afasto, a vista trará de volta – é pelo olho, portanto, que meu amor persiste, envio-o através do nosso laço de pano rasurado. E agora o céu já está escuro, meu ouvido está alto com essa guitarra empolgada combinando com meu aspecto, o paladar amarga embaixo da língua: eu olho para frente, frente-a-frente e também, ainda-por-ti, para os lados.

Você só olha para baixo.

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