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Carta do dia seguinte

14/09/2016

Eu sempre soube que algo de problemático estava posto, assim bem colocado e articulado em mim. Não era um distúrbio, não era uma desordem: era a própria lógica dos meus mecanismos, da minha compleição, ter esse algo em mim que era fora do lugar. Não deve ser difícil para você imaginar, você viu ontem essa estranheza em uma das poucas horas que ela se manifesta.

E vê bem, te digo estranheza como quem olha de uma sociedade normal. Do meu ponto de vista, é a minha constituição íntima. A parte do corpo físico em ação só mostra a superfície provocada de uma água parada. Sabe um lago esquecido em meio a construções abandonadas, quando o sol das quatro da tarde começa a cair e a penumbra começa a atravessar a atmosfera, como pequenos feixes dentro da própria luz? Parece que corta dentro da nossa retina.

Digo, me refiro, assim, específico, naquela hora depois de muito maltrato que eu exausto pedia descanso “daqui a pouco volto”. Eu te disse que não era caso de satisfazer desejos, mas de causá-los. E tentando satisfazê-los, o tempo todo… eu me mostrei cansado. Igual quando eu arranhava minha pele na tua e a película do meu lago estremeceu, revolvendo por um reverberar sutil o que está em mim, assim tão natural e posto, quanto profundo. Eu disse: isso é fantástico! Você é incrível! E foi querendo e causando o mal que eu provoquei o funcionamento em mim, em seu mecanismo suíço.

Sempre digo que não preciso de analistas e psicólogos, que faço análise através de um outro eu, com o qual dialogo. Na imensidão de minhas engrenagens, meu outro eu se revela num reflexo de um lago num entardecer e sua penumbra, cujos raios vão decaindo pela atmosfera e perfurando nossas retinas, convencendo-nos – e é isso que a noite faz, cotidianamente – que é o momento de por cada coisa em seu lugar.

“Tudo que faltava aqui era uma mão de controle.”

Deixa eu te dizer o que você já sabe: não foi pela minha luz que você se aproximou. E mais: esse cheiro bom e doce é o meu passado que carrego comigo, vivo.

Quero te ver amanhã, mais uma vez, te deixo olhar o mar à noite, agitado e o vai e vem te permitirá fingir, fazer de conta que o que te disse agora não é o que te mantém aqui.

Jack

 

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