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Ars Erotica Flutuante. Sexualidade Nebulosa.

29/06/2010

A hipocrisia social gera as mais diversas distorções de comportamento. Na luta incessante entre os argumentos, nada se sabe daquilo que é correto, daquilo que é errado. Tudo fica difuso num mar gelatinoso de relativismo moral. Este, por sua vez, hora se solidifica em uma crosta fina (um ensaio de normalização) e que em pouco tempo volta a submergir, dissoluto dentro da grande massa. Tal situação é um “calo mental” para o ser humano – que não aceita, nem gosta daquilo que não é “estável”. Dentro do ambiente urbano essas tendências dicotômicas – quem aceitar uma, irá recusar a outra – entram em um confronto ideologicamente viciado.

Complexo por ser humano. Difuso por ser Urbano.

***

Ele sempre ouviu que “a vida dava voltas”, que “ao tempo devia ser dado tempo”, que o universo “confluiria” para “acontecer o que tinha que acontecer”, os “desígnios de Deus”, o “Destino”, Hitsuzen (o inevitável). Sempre.

Achava que era um grande conjunto de bobagens, de gente que usava sua capacidade mental para ficcionar – e até ai nenhum problema -, que vendia isso como algo certo, factual – o que ele considerava um mau-caratismo de quinta. Acreditava na força do acaso, do processo caótico que se erigia a partir da tomada de decisão das pessoas, cada qual buscando o melhor para si. Talvez isso fosse o reflexo de uma infância contida, de uma juventude tolhida e cheia de privações sentimentais, de não-realizações, de desejos que eram plenos na sua mente, mas irreais, impraticáveis, imperdoáveis socialmente.

***

O vestiário daquela nova academia era realmente uma jóia rara. Valia cada centavo pago na mensalidade. Estar ali era um deleitamento visual incrível: forma física e poder aquisitivo, exibidos na medida da perdição. A pujança masculina, as curvas vertiginosas femininas, tudo se misturava em uma apreciação sensorial vasta e erotizada.

Os rostos eram conhecidos de outros locais, alguns vinham sendo conhecidos. “Qual bundinha sarada rebolaria melhor no meu mastro?” – pensava, enquanto se preparava para mais uma tarde de treino. Enquanto as duchas quentes tornavam o vestiário masculino uma espécie de inferno hormonal, com o cheiro viril impregnado no vapor d’água, ele fazia uma exibição “particular” de seus dotes de “reprodutor” (ainda que praticasse modalidades do sexo, nas quais é impossível haver reprodução, biologicamente falando) no espelho de corpo inteiro mais próximo.

“Que saúde!” – exclamavam no meio da névoa densa que pairava no local, que incomodava a visão, tornava-a belida. Todos riam do ocorrido.

Um amigo costumava dizer que o andar dos vestiários – o último do prédio – era a porta de Sodoma. A névoa de suor e água era nada além do bálsamo dos perdidos e que o calor era produzido pelo próprio Diabo.

***

“Brincadeira entre amigos, machos” – diziam. “Socialmente aptos”, “sem preconceitos”, “rapazes e homens de bem com a vida”, eram alguns dos argumentos mais comuns para trazer àquele ambiente surreal algum nível de normalidade. Sabiam arrumar a desculpa que fosse necessária para justificar a ação homoerótica, a consolidação do ato sexual com o outro e, por tabela, afastar a pecha do “homossexuaLISMO”. “É só curtição”, “não é toda hora”, “quem come não é viado” – embora vários tentassem, semanalmente, recuperar a falta de uma fase anal freudiana bem desenvolvida – “coisa de amigo”, “eu como mulher também, é só pra variar o cardápio”. Decerto falavam a verdade. Não investigavam uns aos outros, aceitavam, comunalmente, as interpretações de cada um.

***

Um braço saiu dentro da névoa e aplicou um golpe em torno de seu pescoço. A cabeça foi inclinada para cima, obrigando-o a baixar os olhos para olhar para trás. O braço livre do agressor deslizou por seu abdômen treinado e segurou com firmeza o seu pênis. Ele riu. O canto da boca pintou um deboche digno dos poderosos – aquele tipo que não se julga no nível dos deuses, mas acima deles. Era divertido – ele pensava. Estava se divertindo com o “desafio”.

“Ficar se exibindo assim é por que tá na carência de rola, não?” – a voz era desconhecida e falava ao pé do ouvido com meio-tom. Acompanhando a fala na névoa, o corpo alheio grudou no dele revelando a nudez. O sexo roçava ereto em sua nádega. Ele permaneceu calado. O olhar fixo na figura difusa atrás dele. O seu rosto agora exibia um riso de diabólica felicidade…

“Cabou o show? Vou me atrasar pra malhar.” – a voz dele estava séria; o típico sinal que prenuncia uma explosão. O silêncio tomou conta do lugar… “Hahahahahahahahahaha!!!” riam todos. Mais uma piadinha. As amarras corporais foram desfeitas. Uma tampinha no ombro.

“Iae boy. Desculpaê. Tava só brincando” – um rapaz mais alto, só que menos musculoso falou. “Sem problemas” – ele respondeu educado, mas a face não se decidia entre o “sério” e o “zombeteiro”. Apertaram as mãos. Foi até o banco, pegou a roupa, se vestiu. A bolsa no ombro. Saiu calado.

Fora do vestiário seus pensamentos pervertidos não pararam, pelo contrário: cada aparelho de musculação era um convite a um Kama Sutra moderno. O suor alheio era como um desbravador inconsequente do corpo do outro; uma aventura que era acompanhada com o olhar fixo.

Suspirou. Estava satisfeito com a quantidade de dor que adquirira (dentro do limite diário previsto por ele). Seguia a filosofia da dor: “pela dor o sujeito cresce”. Foi tomar um banho. No chuveiro, enquanto a água escorria, em suas costas apareciam os dizeres em letras rabiscadas de uma tatuagem mal-feita: No pain, no gain.

Saiu. Agora vestido de maneira confortável, sandálias de dedo. Perto do elevador que levava ao estacionamento um “par de peitos e coxas deliciosos” – pensamento dele – o abordou insinuante. Ela queria sair. Falou de uma carência. Queria sentir de novo aquele carinho de Homem que ele tinha para dar. Foi recusada. Ouviu que ele “não negava fogo”, mas que não iria para casa. Dali partiria diretamente para o aeroporto. “Pegar o avião para uma reunião em outro estado”. Ela relutou, sedutora. Choramingou. Um muxoxo a mais e cedeu.

Ele pegou o elevador, desceu até o SS. Caminhou um assovio até o carro. E avistou o que queria. Riu satisfeito. Parado, encostado na porta do motorista, estava o seu “desafiante” de uma hora atrás. Foi chegando perto, colocou a chave na porta – deixando o corpo bem próximo do outro – como quem não via nada além do carro. Não falou. Jogou as coisas no banco de trás, sentou e fechou a porta. Baixou o vidro. Farol acesso, o motor roncou: “Iae, vai entrar, ou não?”

***

Rir-se-á da acusação de pansexualismo que em certo momento se opôs a Freud e à Psicanálise. Mas os que parecerão cegos serão, talvez, nem tanto os que a formularam, como os que a rejeitaram com um simples gesto, como se ela traduzisse somente os temores de uma velha pudicícia. Pois os primeiros, afinal de contas, apenas se surpreenderam com um processo que começara havia muito tempo e que não tinham percebido que já os cercava de todos os lados; tinham atribuído exclusivamente ao gênio mau de Freud o que estava preparado há muito tempo; tinham-se enganado de data quanto à instauração, em nossa sociedade, de um dispositivo geral de sexualidade. Mas os outros erraram quanto à natureza do processo; acreditaram que Freud restituía enfim, ao sexo, por uma reversão súbita, a parte que lhe era devida e que lhe fora contestada por tanto tempo; não viram que o gênio bom de Freud o colocara em um dos pontos decisivos, marcados, desde o século XVIII, pelas estratégias de saber e de poder; e que, com isso, ele relançava com admirável eficácia, digna dos maiores espirituais e diretores da época clássica, a injunção secular de conhecer o sexo e colocá-lo em discurso. Evoca-se com frequência os inúmeros procedimentos pelos quais o cristianismo antigo nos teria feito detestar o corpo; mas, pensemos um pouco em todos esses ardis pelos quais, há vários séculos, fizeram-nos amar o sexo, tornaram desejável para nós conhecê-lo e precioso tudo o que se diz a seu respeito; pelos quais, também, incitaram-nos a desenvolver todas as nossas habilidades para surpreendê-lo e nos vincularam ao dever de extrair dele a verdade; pelos quais nos culpabilizaram por tê-lo desconhecido por tanto tempo. São esses ardis que mereceriam espanto hoje em dia. E devemos pensar que um dia, talvez, numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se compreenderá muito bem de que maneira os ardis da sexualidade e do poder que sustêm seu dispositivo conseguiram submeter-nos a essa austera monarquia do sexo, a ponto de votar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras.

Ironia desse dispositivo: é preciso acreditarmos que nisso está nossa “libertação”.

História da Sexualidade, vol. I. Michel Foucault.

Foucault opõe dois conceitos, o de ars erotica e o da scientia sexualis.

Ars erotica, própria de civilizações como Roma, Índia, China, etc., buscavam no saber sobre o prazer formas de ampliá-lo, era um saber de dentro, onde a verdade sobre o prazer é extraída do próprio saber.

No ocidente configurou-se a scientia sexualis, onde a confissão é central na produção de saberes sobre o sexo. Os ocidentais são levados a confessar tudo, expor seus prazeres, uma obrigação já internalizada. A confissão estabelece uma relação de poder onde aquele que confessa se expõe, produz um discurso sobre si, enquanto aquele que ouve interpreta o discurso, redime, condena, domina.

Marko Monteiro (Campinas, 1997)

Ars Erotica Flutuante. Sexualidade Nebulosa. é o quarto texto da série Contos Urbanos.

Esse texto é uma face parcial de uma moeda textual que ainda será totalmente revelada. Acho que dessa vez eu “cutuquei uma ferida”. Se sim, ótimo. A idéia é essa. Os Contos Urbanos não foram criados para “divertir”, “rir e relaxar” apenas.

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3 Comentários leave one →
  1. 29/06/2010 21:24

    Vejo o conceito de ‘certo’ e ‘errado’ como algo que a gente aprende a partir do que nos mostram. Mas, percebo que cada um constrói seu ‘moralismo’ e que às vezes é tão diferente que se torna ‘errado’ para quem julga — e aí quem está julgando é visto como errado pelo outro, e assim vai…
    Mas aí, o que acontece? Algumas muitas pessoas vestem a face de ‘normal’ e ‘perfeitamente enquadrado’ perante os outros e ‘quando ninguem está vendo’ estouram, se libertam.
    Acho que o fundamental é respeitar o espaço do outro. Se assim for, faça o que bem entende.
    Todos temos desejos. Todos.
    Isso não é condenável. Condenável é, sim, a hipocrisia que, aliás, é grande.
    Percebamos…

  2. Ray permalink
    01/07/2010 19:58

    Amei o jogo com a nebulosidade..!

  3. Jônatas permalink
    04/07/2010 22:29

    Gosto comovocê retrata uma parcela da sociedade, se escondendo atrás de um moralismo quando ao mesmo tempo ele pratica algo e tem preconceito do que ele tá praticando,tentando se esconder atrás de desculpas para ser melhor do que o que ele julga inferior a ele.Mostra ali o desejo de reconhecimento da parte alheia, e a forma como o ser humano vive atraves de seus interesses. Gostei do texto.

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